Método SONDAR
O Método SONDAR – Situação, Objetivos, Necessidades, Dados, Análise e Resultados, desenvolvido pelo Um Pingo de Ciência, é uma metodologia para estruturar investigações sobre normas, leis, políticas públicas, benefícios, decisões, contratos e outras intervenções institucionais.
Seu propósito é ir além da leitura superficial de um documento ou da confirmação de uma suspeita. O método procura reconstruir por que determinada intervenção existe, o problema ou necessidade que pretende enfrentar, o que efetivamente estabelece, quem se beneficia e quem é afetado, como deveria produzir seus resultados, quais riscos e conflitos podem estar envolvidos, quais informações são necessárias para avaliá-la e o que as evidências permitem concluir.
O SONDAR pode partir de uma pergunta apresentada pelo usuário ou do próprio objeto investigado. Uma lei, por exemplo, pode ser analisada mesmo quando sua motivação não estiver explicitamente indicada: o método procura identificar a motivação declarada e, separadamente, formular possíveis motivações inferidas a partir do texto e de seu contexto.
O método não pressupõe previamente que uma norma, política, instituição ou decisão seja adequada ou inadequada, nem que exista irregularidade. Seu objetivo é tornar a investigação mais estruturada, rastreável, verificável e aberta à revisão.
Por que o Método SONDAR foi criado?
Normas, políticas, benefícios e decisões institucionais frequentemente são analisados a partir de suas declarações, justificativas ou resultados mais aparentes. Esse processo pode deixar de lado questões essenciais: qual problema motivou a intervenção? Quem realmente se beneficia? Qual é o custo? Como o benefício deveria produzir o resultado pretendido? Quais condições precisam existir para que isso aconteça? Quem fiscaliza? Que dados permitem verificar os resultados? Existem riscos, incentivos ou conflitos que precisam ser examinados?
Também é comum que uma investigação comece com uma suspeita e procure apenas evidências capazes de confirmá-la.
O Método SONDAR procura reduzir esses problemas por meio de um processo explícito, documentado e revisável.
A pergunta central do método é:
O que esta intervenção pretende fazer, por que existe, quem beneficia, quem é afetado, o que precisa acontecer para que funcione e o que as evidências permitem concluir?
Princípio central
Compreender o propósito antes de julgar o resultado, compreender o mecanismo antes de atribuir efeitos e obter evidências antes de concluir.
O SONDAR parte da ideia de que uma norma não deve ser analisada apenas pelo que declara fazer. É necessário investigar sua estrutura, seus mecanismos, seus atores, seus incentivos, suas condições de funcionamento e seus efeitos observáveis.
Quando a motivação não estiver explicitamente documentada, ela poderá ser reconstruída como hipótese de investigação, nunca apresentada como fato.
Da mesma forma, a identificação de um risco ou de um possível conflito de interesse não constitui, por si só, demonstração de irregularidade.
Como funciona o Método SONDAR?
O método segue uma sequência lógica:
Objeto → Motivação → Necessidade → Objetivo → Desenho → Atores e afetados → Riscos e conflitos → Perguntas → Hipóteses → Evidências necessárias → Instrumentos e solicitações → Coleta → Verificação → Análise → Resultados → Limitações → Conclusão → Revisão
Cada etapa responde a uma pergunta e produz elementos que alimentam a etapa seguinte.
O fluxo é iterativo. Novas informações podem modificar perguntas, hipóteses, análises ou conclusões.
As dimensões do Método SONDAR
S – Situação
O que estamos investigando e por que a investigação começou?
Examina o objeto da investigação, seu contexto, a motivação que levou à abertura do trabalho e os elementos que justificam sua análise.
O método distingue a motivação declarada, quando documentada, da motivação inferida, quando reconstruída a partir do objeto e de seu contexto.
O – Objetivo
O que a intervenção pretende produzir?
Examina o propósito declarado ou reconstruído, o problema que pretende enfrentar, o resultado desejado e a coerência entre necessidade e objetivo.
Também verifica se o resultado pretendido pode ser observado ou posteriormente avaliado.
N – Necessidades
Que problema justificaria a intervenção e o que precisa existir para que ela funcione?
Investiga a necessidade ou problema público, institucional ou social que justificaria a intervenção e identifica as condições necessárias para que seu mecanismo produza o efeito esperado.
Essa dimensão procura distinguir entre:
problema identificado → solução proposta → condições de funcionamento.
Uma intervenção pode ter um objetivo claro, mas ainda apresentar lacunas sobre aquilo que precisa acontecer para que ele seja alcançado.
D – Dados
Que informações precisamos obter para testar as perguntas?
Identifica as evidências necessárias para responder às questões formuladas e define onde essas informações podem ser encontradas.
Inclui:
- documentos oficiais;
- bases públicas;
- dados administrativos;
- dados estatísticos;
- contratos e processos;
- relatórios;
- estudos científicos;
- pedidos de acesso à informação;
- entrevistas;
- outras fontes pertinentes.
Quando a informação não estiver disponível publicamente, o método orienta sua solicitação pelos instrumentos adequados.
A – Análise
O que as evidências reunidas permitem compreender?
Examina as relações entre documentos, dados, hipóteses, mecanismos, atores, custos, benefícios, riscos e resultados.
A análise deve distinguir aquilo que foi:
documentado → observado → inferido → hipotetizado → concluído.
Também devem ser consideradas explicações alternativas e evidências capazes de contrariar a interpretação principal.
R – Resultados
O que foi demonstrado?
Organiza os resultados da investigação, respondendo às perguntas formuladas e indicando o grau de sustentação de cada resposta.
Uma investigação pode concluir que algo foi confirmado, parcialmente confirmado, não confirmado, contradito ou permaneceu inconclusivo.
O resultado deve permanecer proporcional às evidências disponíveis.
O SONDAR também investiga o desenho da intervenção
Uma das características do método é não limitar a investigação aos resultados observados.
Antes de perguntar “funcionou?”, o SONDAR procura perguntar:
“O que precisava acontecer para que funcionasse?”
Isso permite identificar possíveis:
- lacunas normativas;
- lacunas regulamentares;
- lacunas operacionais;
- lacunas informacionais;
- lacunas de fiscalização;
- lacunas de avaliação.
A existência de uma lacuna não constitui automaticamente uma irregularidade. Ela indica uma questão que deve ser examinada.
Como o método trata conflitos de interesse?
O SONDAR não considera que uma relação pessoal, profissional ou institucional constitua automaticamente um conflito de interesse.
A análise procura identificar:
conflito potencial → conflito documentado → conflito comprovado → conflito não identificado
São examinados, quando pertinentes:
- relações entre atores;
- interesses econômicos;
- responsabilidades institucionais;
- incentivos;
- concentração de benefícios;
- dependências;
- possíveis favorecimentos;
- efeitos não intencionais.
A simples existência de uma relação não basta para produzir uma conclusão.
Obtenção de informações e dados
O Método SONDAR considera a obtenção de informações parte integrante da investigação.
Quando necessário, podem ser utilizados:
- Lei de Acesso à Informação;
- e-SIC;
- pedidos administrativos;
- bases de dados públicas;
- dados abertos;
- registros oficiais;
- processos administrativos;
- contratos;
- relatórios;
- bases estatísticas;
- consultas a órgãos públicos.
Cada solicitação deve ser registrada, incluindo, quando pertinente, data, protocolo, órgão destinatário, prazo, resposta, negativa, recurso e eventual resposta complementar.
A ausência de informação também deve ser registrada, mas não deve ser interpretada automaticamente como ausência do fenômeno investigado.
Evidência e rastreabilidade
Uma fonte fornece informação. Essa informação se torna evidência quando é pertinente a uma pergunta da investigação e pode ser examinada por um procedimento identificável.
Cada evidência relevante deve, sempre que possível, registrar:
- fonte;
- data;
- versão;
- localização;
- pergunta à qual responde;
- natureza da evidência;
- limitações;
- resultado da verificação.
A trilha mínima é:
Pergunta → Evidência necessária → Fonte → Instrumento de obtenção → Evidência obtida → Verificação → Análise → Resultado → Conclusão
Classificação dos resultados
O SONDAR utiliza uma classificação para indicar o estado de cada resposta investigada:
Confirmado
As evidências disponíveis sustentam suficientemente a afirmação.
Parcialmente confirmado
As evidências sustentam parte da afirmação, mas permanecem lacunas relevantes.
Não confirmado
As evidências disponíveis não sustentam a afirmação.
Contradito
As evidências relevantes apontam em sentido contrário.
Inconclusivo
Não há evidências suficientes para determinar a resposta.
Não aplicável
A pergunta não se aplica ao objeto investigado.
A classificação não representa um julgamento moral ou político sobre o objeto.
Como interpretar uma investigação SONDAR?
Uma investigação SONDAR não produz automaticamente uma acusação, uma aprovação ou uma reprovação.
Seu resultado deve ser interpretado à luz:
- das perguntas formuladas;
- das fontes utilizadas;
- dos dados obtidos;
- dos procedimentos de verificação;
- das limitações;
- da data de referência;
- e da força das evidências.
Uma conclusão inconclusiva pode ser a conclusão metodologicamente correta quando os dados disponíveis não permitem maior segurança.
Para que o Método SONDAR pode ser utilizado?
O método pode ser aplicado a:
- leis e propostas legislativas;
- decretos e regulamentos;
- políticas públicas;
- programas e projetos;
- benefícios fiscais;
- subsídios;
- contratos e contratações públicas;
- decisões administrativas;
- uso de recursos públicos;
- prestação de contas;
- normas privadas ou institucionais;
- projetos e compromissos de organizações;
- questões de interesse público;
- investigações documentais e jornalísticas;
- análises ex ante;
- acompanhamento de implementação;
- análises retrospectivas.
Também pode ser utilizado como instrumento de controle social, pesquisa, jornalismo, divulgação científica e produção de conhecimento público.
O que o Método SONDAR não faz
O SONDAR é um protocolo de investigação e análise.
Ele não substitui, quando necessários:
- métodos jurídicos especializados;
- auditorias profissionais;
- pesquisas científicas;
- análises estatísticas especializadas;
- perícias;
- investigações policiais;
- procedimentos administrativos;
- avaliações contábeis;
- avaliações éticas ou regulatórias.
O método também não determina, sozinho, se uma política é moralmente correta, politicamente desejável ou juridicamente válida.
Ele pode identificar questões que exigem essas análises especializadas, mas não deve apresentar essas avaliações como conclusões metodológicas automáticas.
Princípios de qualidade
Conclusão aberta
Toda conclusão permanece sujeita a revisão diante de novas evidências.
Distinção entre fato e inferência
Hipóteses e inferências não devem ser apresentadas como fatos documentados.
Busca de evidência contrária
A investigação deve procurar também evidências capazes de enfraquecer sua interpretação principal.
Neutralidade do procedimento
O método não pressupõe culpa, inocência, sucesso, fracasso ou inadequação.
Proporcionalidade
A força da conclusão não deve ultrapassar a força das evidências.
Rastreabilidade
As afirmações relevantes devem poder ser reconduzidas às evidências correspondentes.
Transparência das lacunas
Ausências, negativas, inconsistências e limitações devem ser registradas.
Proteção de dados
Informações pessoais e sensíveis devem ser tratadas de acordo com a legislação aplicável, utilizando-se dados agregados quando forem suficientes.
Revisabilidade
Novas evidências podem modificar resultados ou conclusões anteriormente publicados.
Estrutura de uma investigação SONDAR
A publicação de uma investigação deve permitir ao leitor reconstruir o percurso que levou da pergunta à conclusão.
A estrutura recomendada é:
Motivação
Por que a investigação começou?
Problema e necessidade
Que questão ou necessidade está sendo investigada?
Objetivo
O que queremos descobrir?
Perguntas de investigação
O que precisa ser respondido?
Método
Como a investigação será conduzida?
Instrumentos
Como as informações serão obtidas e verificadas?
Documentos
Quais fontes documentais foram utilizadas?
Dados
Quais informações foram obtidas e analisadas?
Linha do tempo
Quando os principais fatos e etapas ocorreram?
Resultados
O que as evidências mostram?
Limitações
O que não foi possível determinar?
Conclusão
O que podemos afirmar?
Atualizações
O que mudou depois da publicação?
Perguntas essenciais do Método SONDAR
Antes de concluir uma investigação, o método propõe perguntar:
Qual é o objeto exato da investigação?
Por que a investigação foi aberta?
A motivação está documentada ou foi inferida?
Que problema ou necessidade justificaria a intervenção?
O que ela pretende produzir?
Como deveria produzir esse resultado?
Quem se beneficia e quem é afetado?
Quem decide, executa e fiscaliza?
Quais incentivos, riscos e conflitos precisam ser examinados?
Quais evidências precisamos para responder às perguntas?
Onde estão essas informações?
Precisamos solicitá-las formalmente?
As evidências obtidas são autênticas, completas e consistentes?
Que evidências contradizem nossa interpretação principal?
O que os dados permitem afirmar?
O que não conseguimos determinar?
O que poderia alterar a conclusão?
Materiais oficiais
Manual metodológico – Versão 1.0
Documento oficial que apresenta os fundamentos, princípios, dimensões, critérios, protocolo de investigação, regras de obtenção e avaliação de evidências, classificação dos resultados, controle de qualidade, limitações e governança do Método SONDAR.
[BAIXAR O MANUAL METODOLÓGICO]
Materiais complementares
Matrizes de aplicação, fichas de investigação, modelos de registro de evidências e outros instrumentos poderão ser disponibilizados nesta página à medida que forem oficialmente publicados.
Versionamento
Método SONDAR – Versão 1.0
A versão 1.0 corresponde à primeira versão pública consolidada da metodologia.
Alterações futuras nos princípios, dimensões, critérios, regras de aplicação, procedimentos de investigação ou classificação deverão ser identificadas por controle de versão, permitindo distinguir aplicações realizadas sob diferentes versões do método.
Histórico de versões
1.0 – 2026
Publicação da metodologia, dos critérios e do protocolo de aplicação.
Licença e atribuição
O conteúdo metodológico do Método SONDAR, bem como os materiais correspondentes disponibilizados nesta página, são oferecidos sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0).
A licença permite copiar, redistribuir e adaptar o material, inclusive para fins comerciais, desde que seja atribuída a devida autoria e sejam indicadas eventuais alterações realizadas.
Atribuição sugerida:
Método SONDAR – Investigação de normas, políticas, benefícios e decisões baseada em evidências, por Um Pingo de Ciência, sob licença CC BY 4.0.
A licença não implica endosso do Um Pingo de Ciência a adaptações, aplicações específicas, interpretações ou conclusões produzidas por terceiros.
O nome Método SONDAR, a denominação Um Pingo de Ciência, seus logotipos e demais elementos distintivos de identidade não são abrangidos por esta licença.
Investigar também é perguntar
Toda norma produz efeitos. Todo benefício tem beneficiários. Toda política parte de uma necessidade. Toda decisão produz consequências.
Por isso, investigar não é apenas procurar irregularidades.
É perguntar:
Por que isso existe?
O que pretende produzir?
Quem se beneficia?
Quem é afetado?
Como deveria funcionar?
O que precisamos saber?
O que as evidências mostram?
O Método SONDAR foi desenvolvido para tornar essas perguntas mais sistemáticas, transparentes, rastreáveis e verificáveis.
Não investigamos para confirmar uma conclusão. Investigamos para descobrir o que as evidências permitem concluir.
Um pingo de ciência em um deserto de desinformação.
